sexta-feira, 9 de março de 2012

HARTOG, François. Tempo e Patrimônio. Varia História, Belo Hozizonte, vol 22 nº 36: p. 261-273, jul/dez 2006

Semana passada iniciamos a disciplina Memória e Identidade no Mestrado em Patrmônio Cultural e Sociedade. Ontem tivemos as primeiras produções dos mestrandos a partir de suas leituras e reflexões que hoje socializo nesse espaço. Aqui segue a produção de Jailson Estevão dos Santos.


MPCS-IV  -  UNIVILLE – JOINVILLE – SC -   MEMÓRIA E IDENTIDADE
Professoras: Drª Ilanil Coelho e  Drª Raquel Venera.    ALUNO: Jailson Estevão dos Santos

FICHAMENTO:
HARTOG, François. Tempo e Patrimônio. Varia História, Belo Hozizonte, vol 22 nº 36: p. 261-273, jul/dez 2006

1º Leitura Exploratória.
2º) Resumo geral: Discute a redefinição da “memória” e do “patrimônio” dentro do novo “regime de historicidade” e trabalha o conceito de presentismo.

3º)  Conteúdo:
            Resumo: O autor apresenta um novo conceito de “tempo presente” a partir do conceito de Regime de Historicidade – a história vista como linear.

            Página 262 2º § - É usado o termo “presentismo” para conceituar tempo presente visando a atingir, para tal, um significado de onipresença.
            Página 262 3º § - Cita-se o exemplo da história profissional francesa, a qual também se insere no mesmo contexto de histórias de crimes contra a humanidade e marcada pela imprescritibilidade.

            Página 262 4º § - O autor afirma que a noção de “regime de historicidade” lhe pareceu mais viável para trabalhar o “presentismo”. Faz um rápido apanhado dos seus fundamentos sobre o RH, com base nas ideias de Marshal Sahlins (Antropólogo americano que defendeu a teoria do avanço unilinear das sociedades, contrapondo-se ao conceito de avanço multilinear), e Claude Lévi Strauss com a noção de “sociedades quentes e frias” (historicamente engajadas, ou não). Apreende os fatos do passado, presentes aqui e agora, por exemplo, de povos autóctones do pacífico.
            Página 263 2º § - Evoca o alemão Heinhart Koselleck que pesquisou as categorias meta-históricas da “experiência” e da “espera” analisando as tensões e modos de articulação entre presente, passado e futuro, e como essas são postas em relação.

            Página 263 3º § Sugere-se, então, uma relação com a antropologia histórica, e a compreensão do RH em duas formas:
a)      Numa acepção restrita, como uma sociedade trata seu passado.
b)      Numa acepção mais ampla apela para uma “consciência de si e de uma comunidade humana”

            Em Paul Ricoer a filosofia da história traça o que ele chama de “a condição de ser histórico” (p. 263 4º §). Na abordagem de François Hartog foca-se a diversidade do RH”.
            Página 264 – É citado o exemplo do Muro de Berlim. Ele foi derrubado, mas “seria evidentemente falso dizer que ele tinha se congelado” (1º §), a história está viva, presente e fluente: no Muro, em sua queda e no espaço pós derrubada.

            Como afirma Hans Scharoun: “Não se pode ao mesmo tempo construir uma sociedade nova e reconstruir os prédios antigos”. Nesse sentido Berlim se tornou uma cidade emblemática, um ícone de Memória e Identidade. (p. 264. 3º §)
            Memória e Identidade parecem estar sempre em relação com o regime de historicidade. Um resgate constante do fluxo de informações entre passado, presente e futuro. Daí a questão: Um novo RH, centrado sobre o presente, estaria se formulando? (p. 265. 2º§)

            Que significados adquirem ao longo do tempo o foco centrado no patrimônio enquanto apontando para memórias do passado, se este, já há algum tempo reclama um ajuste ao regime moderno apontando para o futuro? (p. 265 3º §)
            O patrimônio se impôs como categoria dominante:

  • Na França entre 1983 e 2002 foram mais de onze milhões de visitantes.
  • As convenções da UNESCO incentivam a universalização do patrimônio
  • Uma Escola Nacional do Patrimônio encarregada de formar os futuros conservadores, funciona desde 1991 em Paris.
  • Existe desde 1996 um Fundação do Patrimônio
  • Discussões sobre o Patrimônio são organizadas desde 1984 pela direção do Patrimônio no Ministério da Cultura. (p. 265)
            (Página 266 2º§) É citado Pierre Nora e os “Lugares de Memória”, para relembrar que por um momento a História da patrimonialização, na França, se confunde com Memória e Identidade. Isso está claro na definição dada na lei de 1993 sobre o patrimônio monumental: “nosso patrimônio é a memória de nossa história e o símbolo de nossa identidade nacional”.

            Nesta nova configuração, Patrimônio e Memória operam como vetores de identidade. (p.2663º §)
            (p. 266 4º §) A partir daqui é citado o exemplo do Japão cujas leis, desde 1871, introduzem a noção de “tesouro nacional”, em que a palavra tesouro aponta para o aspecto imaterial (origem divina), até à lei de 1950, quando pela primeira vez aparece o conceito de patrimônio cultural intangível.

            Duas particularidades:

1)                  É prevista a reconstrução periódica de certos edifícios religiosos. (Nesse caso, o dilema ocidental: “conservar ou restaurar”, não existe)
A lógica japonesa é a da atualização dos patrimônios. (p. 267 2º§)

2)                  No Japão é dada a designação de “tesouro nacional vivo” a indivíduos ou grupos, que possuidores de um patrimônio intangível, comprometem-se a transmiti-lo. (lei de 1950).
Portanto, as noções de “original”, “cópia”, “autenticidade”, não são portadoras dos mesmos valores no Japão.

No decorrer dos anos então aumenta-se o foco em torno do patrimônio e da memória pelo que foi preciso estipular “que nenhuma obra de arquiteto vivo seria considerada como monumento histórico”. “Isto é um indício muito claro deste presente que se historiciza”. (p. 268 2º §)
A questão do tema dos patrimônios e do jogo do tempo está claro na preocupação que aparece na concepção de monumento histórico que sofre alterações, entre a Carta de Atenas (1931) e a Carta de Veneza (1964), as quais discutem: o que preservar, e por que preservar? (p. 268 3º §)

A partir dessas noções, legislações e discussões os patrimônios se multicaram; Já estão arrolados:

1)      O “patrimônio cultural protegido”;
2)      O “patrimônio cultural de proximidade” (Conjunto territorial);
3)      O “patrimônio natural”;
4)      O “patrimônio vivo”;
5)      O “patrimônio imaterial”;
sem falar nos termos “patrimônio genético” e “ético” que já começam a circular. (p. 269 1º§)

A inserção do conceito histórico na noção de monumento é um avanço entre a Carta de Atenas para a Restauração dos Monumentos Históricos e a Carta de Veneza. Essa última afirma no art. 1º: “A noção de monumento histórico inclui a criação arquitetural isolada assim como o sítio urbano ou rural que traz o testemunho de uma civilização particular, de uma evolução significativa ou de um evento histórico. Ele se estende não somente às grandes criações, mas também às obras modestas que adquiriram com o tempo uma significação cultural”. (p. 269 2º§)
O século XX foi o que mais invocou o futuro e o que deu maior extensão à categoria do presente (mesmo em busca de raízes, obsecado pela memória).

“Daí vem este olhar museológico lançado sobre o que nos cerca. Nós gostaríamos de preparar, a partir de hoje, o museu de amanhã e reunir os arquivos de hoje como se fossem já ontem, tomados que estamos entre amnésia e a vontade de nada esquecer”.
Um exemplo claro do aproveitamento presente é a mercantilização da derrubada do Muro de Berlim seguida de sua museificação instantânea. (Selo: Original Berlim Mauer) (p. 271 2º§)
Outro componente importante nessa abordagem com vistas ao Regime de Historicidade é a patrimonialização do meio ambiente. Desde a Conferência de 1972 nota-se que as leis internacionais se dão conta da necessidade da universalização do patrimônio ambiental por causa da tendência de destruição do mesmo. Isso diz respeito ao passado, ao presente e consequentemente ao futuro. (p. 271 3º§)
Então fazer o patrimônio cultural dialogar com os seus regimes de temporalidade, nos conduz do passado ao futuro por um presente que ao que tudo parece luta-se para não querer passar.

Observações finais: Dialogar com Choay, Françoise. Alegoria do Patrimônio (ex. pg.237, 253). Le Goff, Jackes. História e memória.  (ex. p. 472). Nora, Pierre. A problemática dos lugares.

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